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terça-feira, 1 de setembro de 2009

"Fernando Pessoa: O guardador de papéis", Org. Jerónimo Pizarro

Um livro para os amantes da obra e vida de Fernando Pessoa, em que se dá a conhecer uma outra vertente poucas vezes divulgada, mas provavelmente mais importante e mais reveladora da essência deste grande escritor. Ele vivia de tudo o que o rodeava e não se inibia de comentar os mais variados temas que se impunham na sua época.
"Pessoa não foi político, nem, de facto, politólogo ou sociólogo, no sentido que estes termos têm contemporâneamente, mas escreveu talvez mais de duas mil páginas sobre temas eminentemente políticos e sociológicos, das quais apenas uma pequena minoria viu a luz do dia em sua vida. As formas de «patologia social», a guerra e a paz, a grandeza e a decadência das nações, o radicalismo político, a opinião pública, o feminismo, o «preconceito revolucionário», a mentalidade e religiosidade populares, a relação do individuo e do estado, a «crença democrática», o «misticismo socialista» ou «bolchevista», o provincianismo, etc, são alguns dos muitos temas que interessam ao Pessoa «sociólogo» da política."

Para além disso, temos acesso a reflexões muito interessantes de Pessoa.
"O desenho das crianças é como o das pessoas que não sabem desenhar - ambos dizem, mas não sabem o que dizem. Não sabem desembaraçar as linhas de uma coisa das linhas das outras coisas que vêem ao mesmo tempo dentro da mesma palavra. A prova é que não são capazes de imitar o que da primeira vez lhes escorregou do corpo pela mão para o papel."
Ou ainda ensinamentos sobre os quais não podemos deixar de pensar e, quem sabe, interiorizar de modo a conferir mais um sentido à nossa vida.
"«Não tenhas mêdo de estares a ver a tua cabeça a ir directamente para a loucura, não tenhas mêdo! Deixa-a ir até à loucura! Ajuda-a a ir até à loucura. Vae tu também pessoalmente, co'a tua cabeça até à loucura. Vem ler a loucura escripta na palma da tua mão. Fecha a tua mão, com força. Agarra bem a loucura dentro da tua mão.
«Senão... se tens mêdo da duvida e te pões a fugir d'ella por môr da loucura que já está à vista, se não começas desde já a desbastar a fantasia que cresceu no logar marcado para ti, lá em baixo na terra; se não pretendes transformar essa fantasia em imaginação tranquilla e creadora...
... um dia a loucura virá plo seu próprio pé bater à tua porta, e tu, desprevenido, e tu sem mãos para a esganar, porque a loucura já será maior do que na palma da tua mão, porque a loucura será maior do que as tuas mãos, porque a loucura poderá mais do que tu com as tuas mãos; e ella fará de ti o pior de todos, por não teres sabido servir-te d'ella como tu devias sabe-lo querer!"

quinta-feira, 2 de julho de 2009

"Desassossego", de Fernando Pessoa

Uma obra de grande qualidade, que nos transporta para uma outra dimensão. Ao lermos na primeira pessoa, é inevitável que incorporemos aquilo que estamos a ler e sintamos mais do que seria esperado, sendo que não vivemos, mas sim imaginamos que vivemos através das palavras de alguém que também imaginou viver o que nos é descrito.
Os pensamentos tornam-se realidade ao tomarem a forma de palavras escritas, e a sua imortalidade uma consequência. E não importa a forma como são escritos, mas sim os sentimentos que despertam.
"A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. O que sinto, na verdadeira substância com que o sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exactamente o que eu senti. E como este outrém é, por hipótese de arte, não esta ou aquela pessoa, mas toda a gente, isto é, aquela pessoa que é comum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti", In O livro do desassossego